12 de abril de 2021

Se o mundo falasse

 Se o mundo pudesse falar, sobre mim ele não diria nada. Que eu ando calma e quieta e assim acabo passando despercebida. Como se eu quase não existisse, se não fosse pelo barulho que eu faço quando esbarro em algum canto. Ele não diria nada sobre mim porque o diálogo acabaria ali, logo quando terminasse de dizer. Que apesar do meu coração acelerado e minha mente ansiosa, minha fala é preguiçosa. Meu olhar já é de sono há uns dias sem pausa. E meu peito tem sido de choro sem causa. O mundo, se pudesse dizer, falaria das árvores, das brisas, das avenidas e dos sons. Falaria do vento e de alguns momentos bons. Nem citaria meu nome, nem deve lembrar de mim. Que eu me guardo nessas paredes desse quarto e nem me atrevo a olhar pra fora. Porque, se eu olho, minha mente pode me levar. E, numa próxima, eu já não sei se vou saber voltar. É por isso que eu não me meto mais com o mundo e ele, se soubesse falar, não falaria de mim. Que dessa forma a gente se abstém de uma conversa vaga que nunca, em 28 anos, se fez necessária. E é de grande elegância que continue assim.


12/04/2021

8 de fevereiro de 2021

2020-2021

Fazia tempo que eu não escrevia aqui porque isso só acontece quando a angústia não cabe em lugar nenhum. Quando não cabe em conversas, nem choros, nem meditações.

Tá doendo a algum tempo essa soma de coisas que viram coisa grande dentro de mim. Viver uma pandemia não seria fácil, alguém já disse isso em algum lugar. Mas junto à ela a vida continua, não é como se ela fosse nos dar descanso só porque estamos vivendo uma pandemia. 

Família.

Minha família parece um campo minado e eu me sinto cada vez mais distante pra não pisar em falso. Tive que ouvir que sou um monstro e que devo poupar minha mãe de ter uma filha como eu. Ouvi isso do filho da minha segunda mãe: minha tia, a mulher que eu entreguei minha vida inteira e todo meu amor. Também tive que ver a filha dela chacotear a sexualidade do meu irmão. Mas é aquela coisa, né? Enquanto gays, já esperamos homofobia dos outros.

Não bastando, a desonestidade veio em forma de dinheiro também. Meu tio tá correndo o risco de perder a casa e o carro, que é o instrumento de trabalho dele. Tudo por conta de desonestidade do meu primo. Daí gente tem que ouvir que devemos amar e perdoar a família. Bla bla bla. 

Trabalho.

Em outro aspecto da minha vida, o motivo desse cuspe nesse blog: meu trabalho. O desânimo, a revolta, a falta de perspectiva. O que fez meu copo transbordar. Quando é que eu vou viver sem ter que me preocupar todos os dias com dinheiro? Quando é que eu vou poder proporcionar algo pros meus pais? As vezes eu sonho com o dia em que eu vou oferecer aos meus pais uma viagem pra Itália. É o sonho da minha mãe. E meu pai, enquanto assiste tv, comenta "será que eu nunca vou ver neve?". Meu pai pega o notebook todos os dias e fica passeando no street view. E quando é que eu vou ter condições pra isso? Porque, no momento, eu sinto que eu nunca tive reconhecimento algum. Será que eu sou tão ruim ou insuficiente assim?

Eu.

Com minha síndrome do ovário policistico eu fiquei bem calva. Minha autoestima tá numa dose bem baixa. Eu tenho vergonha de me olhar no espelho. Que bom que na pandemia eu não vejo ninguém. As vezes é melhor estar sozinha.

Fazia tempo que meu olho não ardia de tanto chorar.

21 de março de 2019

Pedido

Que o universo conspire e permita que a história não se repita. Que eu não tenha que me acomodar em vários sofás desconfortáveis de vários quartos, olhando o pingo escorrer dentro do cano que liga no peito, que leva pra veia e que faz vomitar. Que eu não tenha que correr no corredor pra chamar alguém de branco por estar desesperada e não saber o que fazer. Que você não tenha que dormir mal, nem sentir dor, nem ter medo e nem ficar cansada por tentar viver. Que uma pequena cirurgia e outra pequena cirurgia tire tudo isso de você. E que não volte, que nem pense em voltar, que não vá para o seu sangue e nem comece a se espalhar. Que você se cuide pra que no futuro não tenha que cuidar de algo que é difícil ver curar. E que sejamos fortes caso o universo não me escute e repita o que ficou lá atrás. Que câncer seja só seu signo e nada mais.

Estela Seccatto

26 de janeiro de 2019

Gratidão

A primeira pessoa que eu amei foi a primeira menina que beijei. Ao descobrir que era aquilo que eu gostava, depositei esse "gostar" nela. Ela tinha me introduzido a um mundo novo e meu peito se encheu daquela coisa boa de quando nós DESCOBRIMOS quem somos.


A segunda pessoa que eu amei foi amor adolescente, com borboletas no estômago, coberto de inocência. Aquela coisa de acordar cedo no sábado pra pegar o trem e ficar mais tempo juntas. Aquela coisa de guardar o cheiro do perfume, de dormir abraçada com urso de pelúcia, de dar as mãos na rua. Meu peito se encheu daquela coisa boa de quando nós ASSUMIMOS quem somos.

A terceira pessoa que eu amei foi puro. Não teve toque, não teve contato, mas teve conexão. Ela se fez tão presente que eu não me senti sozinha por um segundo sequer. Foi amor de ligação na madrugada até pegar no sono. Foi amor de inventar assunto pra não ter que desligar. Foi amor de explodir o peito por não ter onde guardar. Foi rascunhar um futuro que nos permitisse ser amor. Ela me deu sede de ser mais. Meu peito se encheu daquela coisa boa de quando nós descobrimos quão grande podemos SONHAR.

A quarta pessoa que eu amei foi cumplicidade. Foi caminhar lado a lado, tomar decisões e olhar na mesma direção. Eu aprendi a encarar a vida como ela é. Ela me ensinou a levantar e andar de cabeça erguida. Apontou verdades pra me fazer crescer e crescemos juntas. Foi fixar os pés no chão, ter nas mãos algo concreto e no peito um sentimento palpável. Foi um dia após o outro. Foi companheirismo. Foi toque, foi corpo no corpo, foi olhar quieto e respiração ofegante. Foi intenso, foi vivido, foi real. Meu peito se encheu daquela coisa boa de quando nós VIVEMOS o amor.

A quinta pessoa que eu amei foi paz. Foi flutuar, relaxar a mente e me desligar. Foi pura confiança. Foi fechar os olhos e deixar levar. Ela me mostrou que não existe tempo ruim nem problemas sem soluções. Foi sorriso matinal, riso fácil e gratidão. Ela foi exemplo de empatia e bondade, foi carinho e caridade, foi o peito que eu descansei. Foi otimismo. Foi simplicidade. Meu peito se encheu daquela coisa boa de quando nós entendemos que o amor deve ser LEVE.

A gente escolhe o que queremos levar de cada experiência vivida. Eu escolhi levar sonho, amor e paz. Poderia fazer um texto sobre as brigas, discussões e términos. Mas isso eu escolhi deixar pra trás.

21 de outubro de 2018

Ser ninguém

Às vezes eu me pego pensando no caminho mais fácil. Eu olho pra mim e não vejo nada. Eu não conquistei nada, eu não tenho nada, eu não sou nada. Tento não me comparar com as pessoas que me cercam e que já estão sendo alguém no mundo (ou que pelo menos sabem quem elas querem ser). Mas a verdade é que eu me comparo constantemente e não tem uma pessoa que eu olhe e que esteja igual a mim: sendo ninguém (jamais desejaria isso pra alguém). Eu tento me erguer, levantar a cabeça e acreditar que as coisas vão dar certo, mas minha mente fica me perguntando "por que você não acaba logo com isso?"
E eu não sei responder.

26 de agosto de 2018

Jangada

Atravessei o pântano
na jangada que você
me ensinou a construir

Desafiei o mundo
sem nunca deixar
a dor me consumir

O seu amor foi tanto
que por toda a vida
me ensinou como seguir
sem você

Ensinou que o pranto
e as despedidas
são essenciais pra se viver
Fortalecer

E hoje, quando eu canto
minhas feridas se curam
em cada canto do meu ser

Você deixou mais que memórias
Mais que histórias
Mais do que eu possa escrever

Você deixou seus sonhos
Suas verdades
Sua sede de viver e aprender

Você marcou minha alma
Carimbou e assinou
Me fez vencer, me fez assim

Você se deixou em mim


(Para minha tia Ligia)

14 de agosto de 2018

Se cala

Sobe
E de lá de cima vê
A vida
Que não mostra a TV
Sofrida
De quem só olha pro chão
Porque não aprendeu a se erguer
Que ninguém acreditou que ia vencer

Olha pro morro
Pro preto
Pro medo
Pro grito
Pro choro
E se cala

Olha o menino
Descalço
Com medo
Correndo
Fugindo
Da bala

Olha a menina
Sofrendo
Vendendo
Por troco
Seu corpo
E me fala

Olhando no meu olho, me fala
Me fala que não vê a senzala

Se faz de morto que não enxerga a morte
Cego por opção
Egoísta de berço, de passo fácil
De luta pequena, que não estende a mão

É direito seu calar essa boca
É mais do que dever se abster
Se tua pele não assina seu óbito no dia de nascer

Estela Seccatto
14 de agosto de 2018

20 de junho de 2018

Gole d'água

Respiração pesada, mal acordava
Faltava pouco pra se libertar
Questão de dias, uma semana, não mais
Eu te olhava admirada enquanto limpava seu rosto
Desgrudava sua pálpebra e cantava...
...porque cantar nunca é demais

Às vezes os olhos abriam e pareciam lua cheia
Brilho distante e fora do meu alcance
A voz tentava sair e quase sempre falhava
Mas eu podia ouvir um grito que não cessava

Sua boca estava seca como a terra nordestina no verão
Só não rachava porque eu não deixava e molhava com algodão
Um dia a voz saiu bem baixa e me implorou por um gole d'água
E eu, que prometi te cuidar, não dei
Não pude dar

Cuidar é ter força pra dizer 'não' sem fraquejar
E assistir calada a sede de uma boca prestes a rachar
É entender que você deve se doar,
se manter de pé, se entregar e aceitar
Daí aprender a ser grata por cada gole d'água que a vida te dá

(Estela Seccatto)

6 de junho de 2018

Vazio

Eu tenho um buraco que não é do lado esquerdo, é do lado de dentro do meu corpo inteiro. É tão grande esse buraco e eu nem sei como foi parar ali. Eu nem vi onde foi que começou e eu nem sei se já terminou de crescer... Se é que um dia cresceu. Às vezes começou assim mesmo: já grande. Porque às vezes ser grande é natural.

Às vezes eu é que sou pequena demais.
Tanto faz.

É tão grande esse buraco que ocupa todo meu espaço e é tão egoísta que não dá espaço pra mais nada entrar. É tão grande esse buraco que me preenche, os olhos têm preguiça até de piscar. O ar entra fraco com medo de incomodar o espaço que o buraco insiste em ocupar. Parece que o coração quer doer mas eu nem sinto ele bater.

Dá vontade de chorar.
Mas não sai lágrima pra chorar.
A mente enlouquece.

Mas não tem espaço pra loucura ficar de tão grande que é esse buraco.

Mal cabe eu dentro de mim.

5 de junho de 2018

Sem título

Sinto um vazio tão grande que olhei pra tela branca e pensei em deixar sem palavra alguma. Eu não sinto nada e isso é desesperador, parece que os dias estão passando e eu não estou vivendo. Isso é o máximo que eu consigo escrever.

16 de maio de 2018

03 noites

NOITE 01

- Tia Ligia, você fica muito tempo com a Bia?
- Ah, toda tarde e quando a Jô e o Rô não estão, né?
- Nossa, é dificil né, a gente se apega demais...
- Se apega mesmo, mas é gostoso.

Era dia das mães e você estava com sua neta (que não conheceu em vida).

Acordei feliz.

NOITE 02

- Estela, você não vai falar com sua tia?
- Às vezes é melhor manter as lembranças que já existem do que ficar criando novas lembranças e depois sentir a dor de se despedir de novo.

Não me segurei quando te vi sozinha. Corri e te abracei. Segurei no seu rosto, olhei nos seus olhos, eu tava desesperada:

- Eu te amo!

Comecei a sair com vontade de chorar.

- Só isso?
- Ah, então resolve uma conta pra mim!
- Haha, uma conta não, ne?!
- Eu tô com medo de esquecer sua voz.

Desabei.

Acordei chorando.

NOITE 03

- Ai, Estela, meu lado esquerdo nao tem mais nada. Agora do lado direito o tumor do pulmão cresceu e juntou com o tumor do fígado, tá bem grande. Eu acho que não vou fazer esse novo tratamento.
- Não faz. Essa nova quimioterapia é muito forte e vai te deixar muito mal. Você já passou por tanta coisa na vida... Precisa descansar.
- Mas será que não vão me achar covarde por nem tentar me tratar?
- Tia Ligia, você ficou 10 anos fazendo tratamento sem descanso nenhum. O médico já falou que essa quimioterapia não vai resolver seu problema, só vai te deixar mal.
- É, eu não vou fazer não.

Acordei entendendo.

12 de abril de 2018

Não vejo ninguém

Eu escuto passos mas não vejo ninguém
Estão apressados fugindo de alguém
Ou de algo
Algo quente, como a dor
ou frio, como o amor
Qualquer coisa que assuste e faça a rua ficar pra trás
como se empurrasse a cidade com os pés
e carregasse o mundo nos ombros
Como se a avenida não tivesse fim
e não tem
Ela vira a esquina, entra no bairro
pula o muro, invade a casa
e diz oi pra menina
que quer sair descalça
lá pro meio da avenida

Eu escuto o pranto mas não vejo ninguém
Garganta engasgada sofrendo por alguém
Ou por algo
Algo como uma despedida
Ou o medo por estar perdida
Ou a angústia de ser encontrada
ou de ser esquecida
Desespero que não passa
Que pega bem na veia do pescoço e rasga
Que corta fundo no peito e grita no ouvido
PARA DE CHORAR
Fecha o punho e dá no meio da cara
pra aprender a não fraquejar

Eu escuto o pulso mas não vejo ninguém
O coração disparado de alguém
Cansado de tanto correr e chorar
Bomba relógio prestes a estourar
A voz prestes a gritar
As pernas prestes a desmoronar

É a alma que se desprende
estoura as correntes
e se rende

Todo o som, exceto o vento, cessa
Silêncio
O céu sussurra que a manhã começa
E eu escuto passos calmos
Não vejo ninguém
Mas tudo clareou e já não há mais breu
Talvez meus olhos estejam encharcados
e quem está se rastejando seja eu

(Estela Seccatto)

26 de março de 2018

Indecisa

As pessoas costumam falar que eu sou indecisa.
E eu sou.
Eu não sei escolher entre fast food ou hamburgueria artesanal.
Eu não sei se quero sair ou beber em casa.
Eu não sei se vou de shorts ou calça.
Eu não sei se sou carente ou desapegada.
Eu não sei nem minha cor preferida.

Mas eu não preciso saber.

Eu percebi que as únicas decisões que eu tomo são as que realmente importam.
Eu escolhi minha faculdade.
Eu escolhi me esforçar pra chegar em algum lugar.
Eu escolhi aceitar um emprego que tinha tudo pra me fazer surtar de ansiedade (e fez).
Eu escolhi o momento no qual eu ia desistir das coisas.
Eu escolhi falar uma das coisas mais difíceis de se falar pra alguém em estado terminal.
Eu escolhi até que ponto valia a pena insistir em algo.

E isso eu precisava fazer.

Todas as coisas importantes da minha vida eu quis decidir sozinha.
Eu quis decidir sozinha pra não poder culpar ninguém depois.
Pra acreditar que eu posso tomar decisões certas.
Pra acreditar que se elas forem erradas eu vou aprender e tirar algo bom disso.
Eu quis decidir sozinha pra confiar mais em mim.

E, caralho, eu tô me tornando uma pessoa que me deixa bem feliz.

21 de março de 2018

Desgraçada!

Se você é mulher cê já não é mais nada
além de puta, ingrata, desgraçada!
O seu lugar não é aqui
Cala a boca e começa a ouvir
exatas palavras que cê já gritou
Sua voz é tão baixa, ninguém quer saber
Me deixa explicar sobre você
e sobre coisas que nunca passei
Sobre como cê é frágil e necessita proteção
de coisas que o mundo preparou só pra mim
NÃO!
Não adianta dizer não!
Não me interessa.
Se apressa que eu tô logo atrás!
Não implora, eu não te escuto
Desse beco escuro cê não esquece mais

Se você é mulher cê já não é mais nada
Será que dá pra entender?
Você é burra ou o quê?
Olha pra mim, eu sou um santo
Abre a boca que eu te espanco
Tenta me acusar: cê leva na cara outra vez
Apanha uma, duas, três...
Até perder a sensatez
Vou te chamar de louca e todos vão ouvir
Sua voz vai ficar rouca de tanto implorar
E tudo o que cê vai escutar é que cê é mulher que gosta de apanhar
Mulher de malandro!
Por que não separa?
Mulher que se dá ao respeito é coisa rara!

Para! Cansei!
Você não pode me entregar
Chegou a hora de te largar num canto pra sangrar
Quem vai ligar? Em qual jornal que vai passar?
Não importa seu nome, sua história ou sua idade,
cê é só mais um cadáver da sociedade.
É só mais um corpo sem voz largado na calçada.

Talvez você mereça.
Infeliz! Mal amada!
Espero que você nunca se esqueça:
Se você é mulher cê já não é mais nada.

(Estela Seccatto)

23 de fevereiro de 2018

Três vezes eu fui você

Três vezes eu fui você: quando nasci, quando cresci e quando morri. Quando te vi meu coração bateu e parecia que ia me rasgar de dentro pra fora. Eu achei lindo. A garganta doía na hora de falar qualquer coisa que fosse, nunca saía da boca o que eu pensava. O estômago revirava, a respiração falhava e eu gaguejava. Eu achava lindo. Eu nasci. De mãos dadas caminhamos dia após dia, lado a lado, passo a passo. Evoluí e não te vi lá do alto. Eu não te vi lá do alto porque mais uma vez você estava do meu lado. Você evoluía no mesmo ritmo, na nossa dança. Eu cresci. Uma hora (não lembro quando) alguém tropeçou (não lembro quem) e caímos ao chão.Ao invés de rir preferimos nos culpar e apontar nossos dedos bem no meio da cara, em meio a gritos, como se nunca tivera sido lindo. Eu morri. Você foi o amor de uma vida inteira assim como outros amores virão. Eu renasci e outra vez serei três vezes um outro alguém. E cada vez que eu nasço, cresço e morro ao lado de alguém eu me reconstruo pra ser simplesmente eu: na minha forma mais pura depois de tanto renascer.


(Estela Seccatto)

Contradição

Minha orquestra é ruído pro seu violão. Pra sua voz de tecido meu ouvido é rebelião. Sou trovão no chuvisco, sou o grito do pulmão. Ansiedade e paciência, eu sou contradição. Sou a dor da garganta antes do choro, sou o medo da veia antes do soro, sou quem desafina no meio do coro, sou o eco do tiro no meio do morro e corro! Sou fogo, sou fumaça, sou tosse. Sou minha dona e sou minha posse. Zona, caos, bandeira branca. Sou fim de guerra, perna manca, chave que não gira a tranca. Sou cela de cadeia, leite, mel e aveia. Montanha-russa. A bala da roleta-russa. O dedo que puxa o gatilho, a cara que leva o tiro e a angústia de quem viu e não fez nada. O primeiro gole na cerveja gelada, sou a alma pelada e a pele lavada. Sou a rifa premiada. Piada. Sem graça. Sou caça e sou leão. Minha desgraça e meu perdão. Apêndice e coração. Meu sangue é frio na palma da mão. Meu silêncio se faz grito na respiração. Minha orquestra é ruído pro seu violão

(Estela Seccatto)

22 de fevereiro de 2018

Quem eu sou

Eu sou a gota de álcool que fazia meu avô pegar a arma e ir atrás do meu pai no meio do mato. Sou todo medo que a lua observava lá do alto enquanto a noite se arrastava. Eu cresci com o pé no barro e no asfalto, a mão no guidão e a cabeça em um mundo que não é esse daqui. Eu fazia lição na cadeira do lado do fogão. A gente não tinha sala, não tinha sofá, tampouco escrivaninha pra estudar. E a gente nem queria ter, nem precisava ter. A gente agradecia ter o que botar no pé e o que comer. Agradecia ter o que sonhar. Nem computador, nem celular. Bastava um quintal e uma mente pra criar. Eu sou o banquinho que minha mãe subia quando criança pra alcançar a pia e lavar a louça. Eu sou a máquina de costura da minha avó. Eu sou a fralda de pano, a dor nas costas, a roupa batendo e o varal já cheio. Eu sou os tijolos colocados lado a lado pelas mãos cansadas do meu pai. Eu sou o cavalo velho do meu tio e o cheiro do café moendo. Eu sou o caminho pra sombra da mangueira, os coringas do baralho e a caixinha de dominó. Eu sou o nó da rede, eu sou a fome e eu sou a sede. Eu sou o trabalho que minha prima deu, sou o susto que minha mãe pariu, o diagnóstico que se ouviu e a dor que todo mundo sentiu. Eu sou os churrascos com música alta e o amor que nunca esteve em falta. Eu sou o câncer da minha tia, a quimioterapia e uma boa companhia. Eu sou toda a alegria e toda a agonia de toda minha família. Eu sou feita de mil histórias que vieram antes de mim e aprendi de mil formas a ser exatamente assim. E é por isso que eu sei que ninguém me conhece tão bem a ponto de me apontar o dedo e levantar a voz. É por isso que eu não abaixo minha cabeça pra quem não sabe a minha história, a história dos meus pais e a história dos meus avós. É por isso que sou feliz por ser quem eu sou, ter vivido o que vivi e ter nascido no berço em que nasci. Essa vitória ninguém tira de mim.

14 de janeiro de 2018

Tomei café gritando

Deitei a cabeça no travesseiro pra descansar a mente e consegui surpreendentemente dormir na primeira tentativa. Duas horas depois acordei. O coração acelerado, a mente gritando: como você ousa tentar me parar? Acendi a luz, esfreguei os olhos e puxei o ar. Nada familiar pra me acalmar. Dormi de novo com uma facilidade que não me pertence. Acordei de uma em uma hora: ela não parava de gritar.

Como você ousa tentar me parar?

COMO VOCÊ OUSA TENTAR ME PARAR?

Como
você
ousa
tentar
me
parar?

Deixei gritar. 

Tomei café gritando. Assisti o noticiário gritando. E gritando observei os pássaros. E gritando senti a garoa e o vento no meu rosto. Eu não parei um segundo de gritar um silêncio ensurdecedor. Quem passava por mim não ouvia nada, nem sequer meu respirar. Só ouviram o som dos pássaros, da chuva e do piano que não para de tocar.


12 de novembro de 2017

A marca que você deixou

Engraçado como sua falsa despedida passa em preto e branco na minha memória mas mesmo assim eu encontro vestígios da dor que ela me causou. Engraçado como eu não sinto nada por você mas lembro de todas as coisas ruins que você me fez sentir. Engraçado pensar que até 3 meses atrás eu nem sabia se você estava viva ou morta. Engraçado passar tanto tempo pensando que você poderia ter se matado e que eu poderia ter colaborado pra isso.
Na verdade, não é nada engraçado.
Mas talvez tenha sido pra você.
Hoje eu tento lidar com uns medos que você fez nascer em mim há 8 ou 9 anos atrás. Não que minha qualidade de vida tenha piorado ou que eu tenha me privado de algo por conta dessas cicatrizes, mas é uma luta interna constante e incessante que às vezes eu prefiro evitar. Mas a vida é assim mesmo e quem me conhece sabe que eu não me deixo fraquejar. 
Eu queria que você voltasse por 5 minutos e me explicasse o que aconteceu. Eu queria ouvir da tua boca que o erro foi seu e que você preferiu fugir à encarar. Mas isso não vai acontecer e é sabendo disso que eu aprendi a lidar. 

23 de outubro de 2017

Minha vida tá uma sopa

e ela tá fervendo, descendo goela abaixo.

Queria que a vida me rasgasse de dentro pra fora pra eu me reconstruir diferente da estupidez que sou. Queria poder gritar sem ninguém ouvir porque não me sinto merecedora dos ouvidos de ninguém. Sinto que qualquer som que eu produzo é apenas um ruído irritante após um grito incessante. Eu vivo me escondendo atrás de mil palavras que não querem dizer nada só pra não ter que dizer alguma coisa. Cada passo que eu dou parece me levar pro lugar errado, independente da direção. Eu não vejo mais pra onde ir e eu nem sei se quero ir. Eu me forço a rir pra me impedir de  quebrar e jorrar todo esse féu por cada canto que eu me escorar. É como se eu fosse fundação mal calculada prestes a rachar com o peso da carga que eu deveria suportar. 

Amanhã tá tudo bem, não precisa perguntar.
Hoje eu sinto minha mente dilacerar.