12 de abril de 2018

Não vejo ninguém

Eu escuto passos mas não vejo ninguém
Estão apressados fugindo de alguém
Ou de algo
Algo quente, como a dor
ou frio, como o amor
Qualquer coisa que assuste e faça a rua ficar pra trás
como se empurrasse a cidade com os pés
e carregasse o mundo nos ombros
Como se a avenida não tivesse fim
e não tem
Ela vira a esquina, entra no bairro
pula o muro, invade a casa
e diz oi pra menina
que quer sair descalça
lá pro meio da avenida

Eu escuto o pranto mas não vejo ninguém
Garganta engasgada sofrendo por alguém
Ou por algo
Algo como uma despedida
Ou o medo por estar perdida
Ou a angústia de ser encontrada
ou de ser esquecida
Desespero que não passa
Que pega bem na veia do pescoço e rasga
Que corta fundo no peito e grita no ouvido
PARA DE CHORAR
Fecha o punho e dá no meio da cara
pra aprender a não fraquejar

Eu escuto o pulso mas não vejo ninguém
O coração disparado de alguém
Cansado de tanto correr e chorar
Bomba relógio prestes a estourar
A voz prestes a gritar
As pernas prestes a desmoronar

É a alma que se desprende
estoura as correntes
e se rende

Todo o som, exceto o vento, cessa
Silêncio
O céu sussurra que a manhã começa
E eu escuto passos calmos
Não vejo ninguém
Mas tudo clareou e já não há mais breu
Talvez meus olhos estejam encharcados
e quem está se rastejando seja eu

(Estela Seccatto)

26 de março de 2018

Indecisa

As pessoas costumam falar que eu sou indecisa.
E eu sou.
Eu não sei escolher entre fast food ou hamburgueria artesanal.
Eu não sei se quero sair ou beber em casa.
Eu não sei se vou de shorts ou calça.
Eu não sei se sou carente ou desapegada.
Eu não sei nem minha cor preferida.

Mas eu não preciso saber.

Eu percebi que as únicas decisões que eu tomo são as que realmente importam.
Eu escolhi minha faculdade.
Eu escolhi me esforçar pra chegar em algum lugar.
Eu escolhi aceitar um emprego que tinha tudo pra me fazer surtar de ansiedade (e fez).
Eu escolhi o momento no qual eu ia desistir das coisas.
Eu escolhi falar uma das coisas mais difíceis de se falar pra alguém em estado terminal.
Eu escolhi até que ponto valia a pena insistir em algo.

E isso eu precisava fazer.

Todas as coisas importantes da minha vida eu quis decidir sozinha.
Eu quis decidir sozinha pra não poder culpar ninguém depois.
Pra acreditar que eu posso tomar decisões certas.
Pra acreditar que se elas forem erradas eu vou aprender e tirar algo bom disso.
Eu quis decidir sozinha pra confiar mais em mim.

E, caralho, eu tô me tornando uma pessoa que me deixa bem feliz.

21 de março de 2018

Desgraçada!

Se você é mulher cê já não é mais nada
além de puta, ingrata, desgraçada!
O seu lugar não é aqui
Cala a boca e começa a ouvir
exatas palavras que cê já gritou
Sua voz é tão baixa, ninguém quer saber
Me deixa explicar sobre você
e sobre coisas que nunca passei
Sobre como cê é frágil e necessita proteção
de coisas que o mundo preparou só pra mim
NÃO!
Não adianta dizer não!
Não me interessa.
Se apressa que eu tô logo atrás!
Não implora, eu não te escuto
Desse beco escuro cê não esquece mais

Se você é mulher cê já não é mais nada
Será que dá pra entender?
Você é burra ou o quê?
Olha pra mim, eu sou um santo
Abre a boca que eu te espanco
Tenta me acusar: cê leva na cara outra vez
Apanha uma, duas, três...
Até perder a sensatez
Vou te chamar de louca e todos vão ouvir
Sua voz vai ficar rouca de tanto implorar
E tudo o que cê vai escutar é que cê é mulher que gosta de apanhar
Mulher de malandro!
Por que não separa?
Mulher que se dá ao respeito é coisa rara!

Para! Cansei!
Você não pode me entregar
Chegou a hora de te largar num canto pra sangrar
Quem vai ligar? Em qual jornal que vai passar?
Não importa seu nome, sua história ou sua idade,
cê é só mais um cadáver da sociedade.
É só mais um corpo sem voz largado na calçada.

Talvez você mereça.
Infeliz! Mal amada!
Espero que você nunca se esqueça:
Se você é mulher cê já não é mais nada.

(Estela Seccatto)

23 de fevereiro de 2018

Três vezes eu fui você

Três vezes eu fui você: quando nasci, quando cresci e quando morri. Quando te vi meu coração bateu e parecia que ia me rasgar de dentro pra fora. Eu achei lindo. A garganta doía na hora de falar qualquer coisa que fosse, nunca saía da boca o que eu pensava. O estômago revirava, a respiração falhava e eu gaguejava. Eu achava lindo. Eu nasci. De mãos dadas caminhamos dia após dia, lado a lado, passo a passo. Evoluí e não te vi lá do alto. Eu não te vi lá do alto porque mais uma vez você estava do meu lado. Você evoluía no mesmo ritmo, na nossa dança. Eu cresci. Uma hora (não lembro quando) alguém tropeçou (não lembro quem) e caímos ao chão.Ao invés de rir preferimos nos culpar e apontar nossos dedos bem no meio da cara, em meio a gritos, como se nunca tivera sido lindo. Eu morri. Você foi o amor de uma vida inteira assim como outros amores virão. Eu renasci e outra vez serei três vezes um outro alguém. E cada vez que eu nasço, cresço e morro ao lado de alguém eu me reconstruo pra ser simplesmente eu: na minha forma mais pura depois de tanto renascer.


(Estela Seccatto)

Contradição

Minha orquestra é ruído pro seu violão. Pra sua voz de tecido meu ouvido é rebelião. Sou trovão no chuvisco, sou o grito do pulmão. Ansiedade e paciência, eu sou contradição. Sou a dor da garganta antes do choro, sou o medo da veia antes do soro, sou quem desafina no meio do coro, sou o eco do tiro no meio do morro e corro! Sou fogo, sou fumaça, sou tosse. Sou minha dona e sou minha posse. Zona, caos, bandeira branca. Sou fim de guerra, perna manca, chave que não gira a tranca. Sou cela de cadeia, leite, mel e aveia. Montanha-russa. A bala da roleta-russa. O dedo que puxa o gatilho, a cara que leva o tiro e a angústia de quem viu e não fez nada. O primeiro gole na cerveja gelada, sou a alma pelada e a pele lavada. Sou a rifa premiada. Piada. Sem graça. Sou caça e sou leão. Minha desgraça e meu perdão. Apêndice e coração. Meu sangue é frio na palma da mão. Meu silêncio se faz grito na respiração. Minha orquestra é ruído pro seu violão

(Estela Seccatto)

22 de fevereiro de 2018

Quem eu sou

Eu sou a gota de álcool que fazia meu avô pegar a arma e ir atrás do meu pai no meio do mato. Sou todo medo que a lua observava lá do alto enquanto a noite se arrastava. Eu cresci com o pé no barro e no asfalto, a mão no guidão e a cabeça em um mundo que não é esse daqui. Eu fazia lição na cadeira do lado do fogão. A gente não tinha sala, não tinha sofá, tampouco escrivaninha pra estudar. E a gente nem queria ter, nem precisava ter. A gente agradecia ter o que botar no pé e o que comer. Agradecia ter o que sonhar. Nem computador, nem celular. Bastava um quintal e uma mente pra criar. Eu sou o banquinho que minha mãe subia quando criança pra alcançar a pia e lavar a louça. Eu sou a máquina de costura da minha avó. Eu sou a fralda de pano, a dor nas costas, a roupa batendo e o varal já cheio. Eu sou os tijolos colocados lado a lado pelas mãos cansadas do meu pai. Eu sou o cavalo velho do meu tio e o cheiro do café moendo. Eu sou o caminho pra sombra da mangueira, os coringas do baralho e a caixinha de dominó. Eu sou o nó da rede, eu sou a fome e eu sou a sede. Eu sou o trabalho que minha prima deu, sou o susto que minha mãe pariu, o diagnóstico que se ouviu e a dor que todo mundo sentiu. Eu sou os churrascos com música alta e o amor que nunca esteve em falta. Eu sou o câncer da minha tia, a quimioterapia e uma boa companhia. Eu sou toda a alegria e toda a agonia de toda minha família. Eu sou feita de mil histórias que vieram antes de mim e aprendi de mil formas a ser exatamente assim. E é por isso que eu sei que ninguém me conhece tão bem a ponto de me apontar o dedo e levantar a voz. É por isso que eu não abaixo minha cabeça pra quem não sabe a minha história, a história dos meus pais e a história dos meus avós. É por isso que sou feliz por ser quem eu sou, ter vivido o que vivi e ter nascido no berço em que nasci. Essa vitória ninguém tira de mim.

14 de janeiro de 2018

Tomei café gritando

Deitei a cabeça no travesseiro pra descansar a mente e consegui surpreendentemente dormir na primeira tentativa. Duas horas depois acordei. O coração acelerado, a mente gritando: como você ousa tentar me parar? Acendi a luz, esfreguei os olhos e puxei o ar. Nada familiar pra me acalmar. Dormi de novo com uma facilidade que não me pertence. Acordei de uma em uma hora: ela não parava de gritar.

Como você ousa tentar me parar?

COMO VOCÊ OUSA TENTAR ME PARAR?

Como
você
ousa
tentar
me
parar?

Deixei gritar. 

Tomei café gritando. Assisti o noticiário gritando. E gritando observei os pássaros. E gritando senti a garoa e o vento no meu rosto. Eu não parei um segundo de gritar um silêncio ensurdecedor. Quem passava por mim não ouvia nada, nem sequer meu respirar. Só ouviram o som dos pássaros, da chuva e do piano que não para de tocar.