16 de setembro de 2010

Quando for

Quando ia a cada dia, ia sempre respirar
Tentava te dar o ar, mas não o tinha nem pra mim
Assim como os motivos, razões ou respostas
pras dúvidas que nunca quis te perguntar

Quando vai a cada dia, toda vez é um adeus
Depois de um tempo a gente pensa em desistir
Pra que tentar recuperar o seu 'eu'
se, nem o meu 'eu', eu consigo encontrar?

Quando for a cada dia, quero saber se voltará
Me dê a certeza de que, ao seu lado, um amanhã existirá
Mas prometa apenas outro dia e não a vida inteira
Larga na mão do destino porque ele o fará

Quando vier, venha devagar, faça durar
Deixa o tempo parar, para o tempo pra eu te olhar
Não solte sua mão da minha e meus braços do abraço
Deixa o medo de lado, deixa de pensar que vou soltar

Sem promessas, sem planos, mas sempre mais além
Sempre quando vem é quando me sinto bem..

Quando for de novo sem intenção de voltar
Deixe comigo o motivo, a resposta e a razão
Diga antes que me amou e por favor não me esqueça
Me guarde ao menos na cabeça, eu vou te ter no coração


(Estela Seccatto)

13 de setembro de 2010

Eu sei muito sobre mim, sei me dar valor e sei me odiar.

Sei que posso pensar em desistir. Posso cair, chorar, vai doer, vou morrer. Sei que sou fraca e que minhas pernas tremem. Sei os momentos que não posso aguentar, sei que erro e que oculto os erros que assisto. Sei que não passo de um ser qualquer, um ser humano.. E de humano são poucas as minhas atitudes. Mas sei que existem seres de formas parecidas com a minha agindo como um mero animal irracional. Sei que não sou irracional. Pelo menos não sou na maioria dos casos.
As vezes meu coração comandava e eu achava certo. Agora permito a razão liderar.. Mas amor e razão é coisa de ser humano, não é? A opção de escolha também, e eu a tenho. Já vivi planejando um futuro inteiro e hoje vivo como se fosse morrer a cada noite de sono. E ainda acho que dormir é uma perda de tempo que, infelizmente, o corpo necessita. Me arrependo e acho isso um dom para poucos, não me julgo uma pessoa tão ruim. Não sou ruim. As vezes. As vezes sou ruim. Mas sou bem pouco ruim. As vezes sou muito ruim. Mas me responda então, quem é que é perfeito? Não sou perfeita mas não sou a pior das coisas. Ninguém é o pior nem o melhor. Meu conceito de ruim pode ser o seu de bom.
Não tente ir contra minhas palavras, opinião não se discute. Me acho uma pessoa seca, fria, e estou bem assim. Já fui mais carinhosa, era constante, costume. Hoje sou com quem eu quero, na hora que quero e quem me quer por perto já se acostumou. Não me importo quando penso que fiz merda. Alguém fez a merda comigo, não só eu.
Se disser que me ama e eu disser que gosto de você.. Ou não disser nada, me agradeça. A sinceridade está se tornando a maior parte de mim. Não seria hipócrita a ponto de falar que nunca fui falsa, que nunca menti.. Sou falsa com pessoas até hoje pra não causar intriga, mas eu deixo bem aparente. É.. se eu sou muito chata com você é porque eu não gosto de você. Sei que sei falar sobre mim, mas não em uma linha. Nem em um texto como esse. Quem me conhece sabe: sou abestalhada. As vezes mau-humorada e cheia de piadas no sense.

Menti falando que era um ser humano.
Sou muitos seres em um só humano. Se é que sou humana, ainda..

(Estela Seccatto)

8 de setembro de 2010

Eu quero perder minhas férias.

Sei agora que você vê todas as coisas que eu faço e não deveria fazer. Me perdoe, eu nunca quis ser um desgosto. Eu nunca quis fazer parte de uma geração perdida, estragada.. Mas talvez eu precise esquecer que eu te perdi e que você não voltará. Entenda que eu não tenho mais alguém pra dizer: 'se cuida porque eu não estarei lá pra cuidar de você'. Sim, eu tenho meus pais, mas eu nunca acreditei muito neles como eu acreditava em você. Meu aniversário tá chegando e vai ser o primeiro sem seu abraço. Eu já deveria ter me conformado com essa ideia, que é a única opção, mas quem no mundo se conforma com perdas? Eu preciso que alguém tire a dor que esse vazio causa em mim. Eu não preciso de alguém me dizendo que tudo vai ficar bem. Eu preciso de alguém que realmente faça tudo ficar bem. Eu preciso parar de me perguntar se você não vai acordar. Preciso te sentir perto, mas esse é o máximo que você pode estar. Eu preciso ir pro Sul ou qualquer canto que me distraia e me faça sorrir. Eu preciso de um abraço ou de qualquer gesto que se mostre verdadeiro sem a necessidade de palavras. Eu preciso, eu imploro pra esquecer que te perdi. Esquecer de como me humilhei banhada em lágrimas diante de seu corpo. Esquecer como foi tolo e desesperador implorar pra não te levarem sendo que você já não estava mais ali. Eu seguro minha respiração pra não chorar, mas e quando as datas comemorativas chegarem e eu não tiver você por perto? Quero dizer: até que ponto eu sou forte? Em que ponto eu vou implorar de novo por alguém pra me segurar, sendo que já o fiz algumas linhas atrás? Arranque essa dor de mim, arranque a dor de te perder porque perdas não tem volta. Queria ter coragem e insensibilidade suficiente pra pedir que me arranque as memórias, mas isso eu nunca vou perder, eu não quero perder. Tire de mim a sensação de encostar na sua pele gelada. A sensação de ter que forçar seu rosto pra fingir que você se foi com um sorriso e então perceber que costuraram seus lábios para sua imagem ficar mais bonita. Tire de mim meus olhos vermelhos que estão aqui desde aquela madrugada. Eu quero perder minhas férias cuidando de você. Eu quero ter certeza que na hora que partiu não sofreu. Eu não quero palavras de consolo, eu quero um abraço de alguém tão verdadeiro como o que é por dentro. Eu quero que essa carência de você desapareça no carinho de outro alguém. Me perdoe, eu nunca quis ser perdida, estragada.. Ou fazer parte de uma geração.



(Estela Seccatto)

27 de agosto de 2010

Não por você.

Por você eu não choro mais.
Não! Por você eu não vou andar ou correr.
Não vou sonhar, não vou me mover, não vou lutar.
Não por você.

Por você eu não caio mais.
Não! Não arriscarei nem mais um passo pra te ver.
Não vou fugir, não vou mentir nem omitir.
Não por você.

Por você eu não vivo mais.
Não! Não farei de tudo nem de pouco pra ter, te manter.
Não tento, portanto, não me levanto.
Não por você.

Sem você já não sei mais.
Não! As coisas não melhoraram ou começaram a se perder.
Não tenho argumentos pra voltar..
ou ficar sem você.

(Estela Seccatto)

16 de agosto de 2010

Carta de Graciliano Ramos para Heloísa.

Heloísa,

Chegaram-me as duas linhas e meia que me escreveste. Pareceram-me feitas por uma senhora muito séria, muito séria! Muito antiga, muito devota, dessas que deitam água benta na tinta. Tanta gravidade, tanta medida, só vejo em documentos oficiais. Até sinto desejo de começar esta carta assim: "Exma.Sra.: tenho a honra de comunicar a V. Exa., etc".
Onze palavras! Imaginas o que um indivíduo experimenta ao receber onze palavras frias da criatura que lhe tira o sono? Não imaginas. E sabes o que vem a ser isto de passar horas acordado, sonhando coisas absurdas? Não sabes. Pois eu te conto.
Sento-me à banca, levado por um velho hábito, olho com rancor uma folha de papel, que teima em tornar-se branca, penso que o Natal é uma festa deliciosa. Os bazares, a delegacia de polícia, a procissão de Nossa Senhora do Amparo.. E depois o jogo dos disparates, excelente jogo. "Iaiá caiu no poço". Ora o poço! Quem caiu no poço fui eu.
Principio uma carta que devia ter escrito há três meses, não posso concluí-la. Fumo cigarros sem contar, olhando um livro aberto, que não leio. Dançam na minha cabeça uma chusma de idéias desencontradas. Entre elas, tenaz, surge a lembrança de uma criaturinha a quem eu disse aqui em casa, depois da prisão do vigário, nem sei que tolices.
Apaga-se a luz, deito-me. O sono anda longe. Que vieste fazer em Palmeira? Por que não te deixaste ficar onde estavas? Não consigo dormir. O nordeste, lá fora, varre os telhados. Na escuridão vejo distintamente essa mancha que tens no olho direito e penso em certa conversa de cinco minutos, à janela do reverendo. Por que me falaste daquela forma? Desejei que o teto caísse e nos matasse a todos.
Andei criando fantasmas. Vi dentro de mim outra muito diferente da que encontrei naquele dia. Por que me quisestes? Deram-te conselhos? Por que apareceste mudada em vinte e quatro horas? Eu te procurei porque endoideci por tua causa quando te vi pela primeira vez. É necessário que isto acabe logo. Tenho raiva de ti, meu amor.
Fui visitar o Padre Macedo. Falou-me de ti, mas o que me disse foi vago, confuso, diante de dez pessoas. É triste que, para ter notícias tuas, minha filha, eu as ouça em público. Foram minhas irmãs que me disseram o dia do teu aniversário e me deram teu endereço.
Tinha razão quando afirmaste que entre nós não havia nada. Muito me fazes sofrer. É preciso que tenhas confiança em mim, que me escrevas cartas extensas, que me abras largamente as portas de tua alma.
Beijo-te as mãos, meu amor.
Recomendo-me aos teus, com especialidade a dona Lili, que vai ser minha sogra, diz ela. Acho-a boa demais para sogra.
Amo-te muito. Espero que ainda venhas a gostar de mim um pouco.

Teu Graciliano.

Palmeira, 16 de janeiro de 1928.

11 de agosto de 2010

Professor

Um professor chamado Heric veio de uma cidade pequena para a grande São Paulo. Achou estranho, rápido demais, cinza demais, gente demais, carro demais. Os anos foram se passando e ele se tornava um paulista. Um paulista na Paulista. Estava indo para a unidade em que ia dar aula (lá perto da Augusta, onde tudo é possível) e avistou logo a sua frente uma moradora de rua fazendo suas necessidades ali, na calçada. Desviou, mudou o passo e simplesmente seguiu o seu caminho.

E agora ele se pergunta o que eu comecei a me perguntar: que atitude foi essa? A gente se acostuma com as coisas e eu acho que precisamos rever alguns conceitos. Caminhão derrapa na pista: "ah, isso acontece sempre". Menina é estuprada em tal lugar: "ah, isso é normal naquele bairro". Senhor é atropelado na rua de trás: "ah, é comum".
Eu só pergunto à vocês: NORMAL? Precisamos rever nossos conceitos, precisamos parar de aceitar essas coisas absurdas que acontecem e que não, não são normais! Eu não estou sendo ignorante para achar que assim mudaríamos o mundo, essa não é minha meta. Em relação ao mundo eu sou um número. Não importa se eu faço alguém rir ou chorar, não importa se eu sofri muito. Nada da minha história importa pro mundo. O que importa é meu número do CPF - e eu ainda nem fui capaz de decorá-lo.


Normal deveria ser o homossexualismo, os negros, as atitudes extravagantes, os vários estilos musicais e as milhares de mutações, sejam elas genéticas ou não.z

(Estela Seccatto)

9 de agosto de 2010

Give me your opinion.

"A: Inveja porque as outras pessoas podem te abraçar e morder e eu não.
B: Eu só quero a sua mordida.
A: Eu só quero você.
B: Vem dormir comigo hoje?
A: Só hoje? Não pode ser pra sempre?
B: É que era um plano maligno.. você ia vir, achando que era só hoje, e eu ia te roubar pra mim.
A: Eu aceito ser sua refém.
B: E se o mundo te quiser de volta? A gente pode se esconder debaixo do cobertor?
A: Vamos trancar até a porta do quarto pra ter certeza de que eu vou ficar com você."

-E então? O que achou?
Os olhos percorreram as palavras por mais alguns minutos e olharam novamente em minha direção. A respiração foi profunda e as mãos finalmente deixavam o livro. Nenhuma expressão, nenhum sorriso e nenhum semblante de desgosto. Acendeu o cigarro, andou até a janela e ficou olhando o céu, o trânsito, as pessoas.. Na mínima intimidade que podíamos ter, me dei o direito de ir ao seu lado. Eu esperava uma resposta. Fiquei olhando as mesmas coisas que aquele olhar cansado olhava. Me deliciei por alguns minutos da paisagem urbana. Fazia tempo que eu não olhava por uma janela. Ele deu um trago no cigarro e me ofereceu. Dei um trago e o devolvi, não queria abusar. Soltou a fumaça e falou, olhando pra uma nuvem qualquer:
-Isso não é um livro, não é história, não é um conto.
Tanto mistério pra não dar nem um pouco de valor pro meu esforço? Escrevi tudo isso pra nada? Eu não estava indo no caminho certo? Eu só queria a aprovação daquele grande mestre da literatura, mas que diabos! O fato é que eu queria quebrar tudo, sair e bater a porta. Chamar ele de ignorante. Mas eu sabia que ele não era ignorante. Minha história que devia estar ruim mesmo. Ele se virou, andou até a mesa, pegou o rascunho do meu livro e o esticou pra mim na intenção de me devolver. E assim o fez. Peguei as folhas, caminhei até a porta sem dizer nada. Faltava pouco pra porta se fechar quando eu ouvi:
-Pra mim isso é amor.
Virei o rosto e o vi sorrindo. Sorriso de gente experiente. Ele arrumou os óculos e eu sorri de volta. Sai daquela sala com um só pensamento: "É, isso é amor".



(Estela Seccatto)