21 de março de 2019

Pedido

Que o universo conspire e permita que a história não se repita. Que eu não tenha que me acomodar em vários sofás desconfortáveis de vários quartos, olhando o pingo escorrer dentro do cano que liga no peito, que leva pra veia e que faz vomitar. Que eu não tenha que correr no corredor pra chamar alguém de branco por estar desesperada e não saber o que fazer. Que você não tenha que dormir mal, nem sentir dor, nem ter medo e nem ficar cansada por tentar viver. Que uma pequena cirurgia e outra pequena cirurgia tire tudo isso de você. E que não volte, que nem pense em voltar, que não vá para o seu sangue e nem comece a se espalhar. Que você se cuide pra que no futuro não tenha que cuidar de algo que é difícil ver curar. E que sejamos fortes caso o universo não me escute e repita o que ficou lá atrás. Que câncer seja só seu signo e nada mais.

Estela Seccatto

26 de janeiro de 2019

Gratidão

A primeira pessoa que eu amei foi a primeira menina que beijei. Ao descobrir que era aquilo que eu gostava, depositei esse "gostar" nela. Ela tinha me introduzido a um mundo novo e meu peito se encheu daquela coisa boa de quando nós DESCOBRIMOS quem somos.


A segunda pessoa que eu amei foi amor adolescente, com borboletas no estômago, coberto de inocência. Aquela coisa de acordar cedo no sábado pra pegar o trem e ficar mais tempo juntas. Aquela coisa de guardar o cheiro do perfume, de dormir abraçada com urso de pelúcia, de dar as mãos na rua. Meu peito se encheu daquela coisa boa de quando nós ASSUMIMOS quem somos.

A terceira pessoa que eu amei foi puro. Não teve toque, não teve contato, mas teve conexão. Ela se fez tão presente que eu não me senti sozinha por um segundo sequer. Foi amor de ligação na madrugada até pegar no sono. Foi amor de inventar assunto pra não ter que desligar. Foi amor de explodir o peito por não ter onde guardar. Foi rascunhar um futuro que nos permitisse ser amor. Ela me deu sede de ser mais. Meu peito se encheu daquela coisa boa de quando nós descobrimos quão grande podemos SONHAR.

A quarta pessoa que eu amei foi cumplicidade. Foi caminhar lado a lado, tomar decisões e olhar na mesma direção. Eu aprendi a encarar a vida como ela é. Ela me ensinou a levantar e andar de cabeça erguida. Apontou verdades pra me fazer crescer e crescemos juntas. Foi fixar os pés no chão, ter nas mãos algo concreto e no peito um sentimento palpável. Foi um dia após o outro. Foi companheirismo. Foi toque, foi corpo no corpo, foi olhar quieto e respiração ofegante. Foi intenso, foi vivido, foi real. Meu peito se encheu daquela coisa boa de quando nós VIVEMOS o amor.

A quinta pessoa que eu amei foi paz. Foi flutuar, relaxar a mente e me desligar. Foi pura confiança. Foi fechar os olhos e deixar levar. Ela me mostrou que não existe tempo ruim nem problemas sem soluções. Foi sorriso matinal, riso fácil e gratidão. Ela foi exemplo de empatia e bondade, foi carinho e caridade, foi o peito que eu descansei. Foi otimismo. Foi simplicidade. Meu peito se encheu daquela coisa boa de quando nós entendemos que o amor deve ser LEVE.

A gente escolhe o que queremos levar de cada experiência vivida. Eu escolhi levar sonho, amor e paz. Poderia fazer um texto sobre as brigas, discussões e términos. Mas isso eu escolhi deixar pra trás.

21 de outubro de 2018

Ser ninguém

Às vezes eu me pego pensando no caminho mais fácil. Eu olho pra mim e não vejo nada. Eu não conquistei nada, eu não tenho nada, eu não sou nada. Tento não me comparar com as pessoas que me cercam e que já estão sendo alguém no mundo (ou que pelo menos sabem quem elas querem ser). Mas a verdade é que eu me comparo constantemente e não tem uma pessoa que eu olhe e que esteja igual a mim: sendo ninguém (jamais desejaria isso pra alguém). Eu tento me erguer, levantar a cabeça e acreditar que as coisas vão dar certo, mas minha mente fica me perguntando "por que você não acaba logo com isso?"
E eu não sei responder.

26 de agosto de 2018

Jangada

Atravessei o pântano
na jangada que você
me ensinou a construir

Desafiei o mundo
sem nunca deixar
a dor me consumir

O seu amor foi tanto
que por toda a vida
me ensinou como seguir
sem você

Ensinou que o pranto
e as despedidas
são essenciais pra se viver
Fortalecer

E hoje, quando eu canto
minhas feridas se curam
em cada canto do meu ser

Você deixou mais que memórias
Mais que histórias
Mais do que eu possa escrever

Você deixou seus sonhos
Suas verdades
Sua sede de viver e aprender

Você marcou minha alma
Carimbou e assinou
Me fez vencer, me fez assim

Você se deixou em mim


(Para minha tia Ligia)

14 de agosto de 2018

Se cala

Sobe
E de lá de cima vê
A vida
Que não mostra a TV
Sofrida
De quem só olha pro chão
Porque não aprendeu a se erguer
Que ninguém acreditou que ia vencer

Olha pro morro
Pro preto
Pro medo
Pro grito
Pro choro
E se cala

Olha o menino
Descalço
Com medo
Correndo
Fugindo
Da bala

Olha a menina
Sofrendo
Vendendo
Por troco
Seu corpo
E me fala

Olhando no meu olho, me fala
Me fala que não vê a senzala

Se faz de morto que não enxerga a morte
Cego por opção
Egoísta de berço, de passo fácil
De luta pequena, que não estende a mão

É direito seu calar essa boca
É mais do que dever se abster
Se tua pele não assina seu óbito no dia de nascer

Estela Seccatto
14 de agosto de 2018

20 de junho de 2018

Gole d'água

Respiração pesada, mal acordava
Faltava pouco pra se libertar
Questão de dias, uma semana, não mais
Eu te olhava admirada enquanto limpava seu rosto
Desgrudava sua pálpebra e cantava...
...porque cantar nunca é demais

Às vezes os olhos abriam e pareciam lua cheia
Brilho distante e fora do meu alcance
A voz tentava sair e quase sempre falhava
Mas eu podia ouvir um grito que não cessava

Sua boca estava seca como a terra nordestina no verão
Só não rachava porque eu não deixava e molhava com algodão
Um dia a voz saiu bem baixa e me implorou por um gole d'água
E eu, que prometi te cuidar, não dei
Não pude dar

Cuidar é ter força pra dizer 'não' sem fraquejar
E assistir calada a sede de uma boca prestes a rachar
É entender que você deve se doar,
se manter de pé, se entregar e aceitar
Daí aprender a ser grata por cada gole d'água que a vida te dá

(Estela Seccatto)

6 de junho de 2018

Vazio

Eu tenho um buraco que não é do lado esquerdo, é do lado de dentro do meu corpo inteiro. É tão grande esse buraco e eu nem sei como foi parar ali. Eu nem vi onde foi que começou e eu nem sei se já terminou de crescer... Se é que um dia cresceu. Às vezes começou assim mesmo: já grande. Porque às vezes ser grande é natural.

Às vezes eu é que sou pequena demais.
Tanto faz.

É tão grande esse buraco que ocupa todo meu espaço e é tão egoísta que não dá espaço pra mais nada entrar. É tão grande esse buraco que me preenche, os olhos têm preguiça até de piscar. O ar entra fraco com medo de incomodar o espaço que o buraco insiste em ocupar. Parece que o coração quer doer mas eu nem sinto ele bater.

Dá vontade de chorar.
Mas não sai lágrima pra chorar.
A mente enlouquece.

Mas não tem espaço pra loucura ficar de tão grande que é esse buraco.

Mal cabe eu dentro de mim.