20 de junho de 2018

Gole d'água

Respiração pesada, mal acordava
Faltava pouco pra se libertar
Questão de dias, uma semana, não mais
Eu te olhava admirada enquanto limpava seu rosto
Desgrudava sua pálpebra e cantava...
...porque cantar nunca é demais

Às vezes os olhos abriam e pareciam lua cheia
Brilho distante e fora do meu alcance
A voz tentava sair e quase sempre falhava
Mas eu podia ouvir um grito que não cessava

Sua boca estava seca como a terra nordestina no verão
Só não rachava porque eu não deixava e molhava com algodão
Um dia a voz saiu bem baixa e me implorou por um gole d'água
E eu, que prometi te cuidar, não dei
Não pude dar

Cuidar é ter força pra dizer 'não' sem fraquejar
E assistir calada a sede de uma boca prestes a rachar
É entender que você deve se doar,
se manter de pé, se entregar e aceitar
Daí aprender a ser grata por cada gole d'água que a vida te dá

(Estela Seccatto)

6 de junho de 2018

Vazio

Eu tenho um buraco que não é do lado esquerdo, é do lado de dentro do meu corpo inteiro. É tão grande esse buraco e eu nem sei como foi parar ali. Eu nem vi onde foi que começou e eu nem sei se já terminou de crescer... Se é que um dia cresceu. Às vezes começou assim mesmo: já grande. Porque às vezes ser grande é natural.

Às vezes eu é que sou pequena demais.
Tanto faz.

É tão grande esse buraco que ocupa todo meu espaço e é tão egoísta que não dá espaço pra mais nada entrar. É tão grande esse buraco que me preenche, os olhos têm preguiça até de piscar. O ar entra fraco com medo de incomodar o espaço que o buraco insiste em ocupar. Parece que o coração quer doer mas eu nem sinto ele bater.

Dá vontade de chorar.
Mas não sai lágrima pra chorar.
A mente enlouquece.

Mas não tem espaço pra loucura ficar de tão grande que é esse buraco.

Mal cabe eu dentro de mim.

5 de junho de 2018

Sem título

Sinto um vazio tão grande que olhei pra tela branca e pensei em deixar sem palavra alguma. Eu não sinto nada e isso é desesperador, parece que os dias estão passando e eu não estou vivendo. Isso é o máximo que eu consigo escrever.

16 de maio de 2018

03 noites

NOITE 01

- Tia Ligia, você fica muito tempo com a Bia?
- Ah, toda tarde e quando a Jô e o Rô não estão, né?
- Nossa, é dificil né, a gente se apega demais...
- Se apega mesmo, mas é gostoso.

Era dia das mães e você estava com sua neta (que não conheceu em vida).

Acordei feliz.

NOITE 02

- Estela, você não vai falar com sua tia?
- Às vezes é melhor manter as lembranças que já existem do que ficar criando novas lembranças e depois sentir a dor de se despedir de novo.

Não me segurei quando te vi sozinha. Corri e te abracei. Segurei no seu rosto, olhei nos seus olhos, eu tava desesperada:

- Eu te amo!

Comecei a sair com vontade de chorar.

- Só isso?
- Ah, então resolve uma conta pra mim!
- Haha, uma conta não, ne?!
- Eu tô com medo de esquecer sua voz.

Desabei.

Acordei chorando.

NOITE 03

- Ai, Estela, meu lado esquerdo nao tem mais nada. Agora do lado direito o tumor do pulmão cresceu e juntou com o tumor do fígado, tá bem grande. Eu acho que não vou fazer esse novo tratamento.
- Não faz. Essa nova quimioterapia é muito forte e vai te deixar muito mal. Você já passou por tanta coisa na vida... Precisa descansar.
- Mas será que não vão me achar covarde por nem tentar me tratar?
- Tia Ligia, você ficou 10 anos fazendo tratamento sem descanso nenhum. O médico já falou que essa quimioterapia não vai resolver seu problema, só vai te deixar mal.
- É, eu não vou fazer não.

Acordei entendendo.

12 de abril de 2018

Não vejo ninguém

Eu escuto passos mas não vejo ninguém
Estão apressados fugindo de alguém
Ou de algo
Algo quente, como a dor
ou frio, como o amor
Qualquer coisa que assuste e faça a rua ficar pra trás
como se empurrasse a cidade com os pés
e carregasse o mundo nos ombros
Como se a avenida não tivesse fim
e não tem
Ela vira a esquina, entra no bairro
pula o muro, invade a casa
e diz oi pra menina
que quer sair descalça
lá pro meio da avenida

Eu escuto o pranto mas não vejo ninguém
Garganta engasgada sofrendo por alguém
Ou por algo
Algo como uma despedida
Ou o medo por estar perdida
Ou a angústia de ser encontrada
ou de ser esquecida
Desespero que não passa
Que pega bem na veia do pescoço e rasga
Que corta fundo no peito e grita no ouvido
PARA DE CHORAR
Fecha o punho e dá no meio da cara
pra aprender a não fraquejar

Eu escuto o pulso mas não vejo ninguém
O coração disparado de alguém
Cansado de tanto correr e chorar
Bomba relógio prestes a estourar
A voz prestes a gritar
As pernas prestes a desmoronar

É a alma que se desprende
estoura as correntes
e se rende

Todo o som, exceto o vento, cessa
Silêncio
O céu sussurra que a manhã começa
E eu escuto passos calmos
Não vejo ninguém
Mas tudo clareou e já não há mais breu
Talvez meus olhos estejam encharcados
e quem está se rastejando seja eu

(Estela Seccatto)

26 de março de 2018

Indecisa

As pessoas costumam falar que eu sou indecisa.
E eu sou.
Eu não sei escolher entre fast food ou hamburgueria artesanal.
Eu não sei se quero sair ou beber em casa.
Eu não sei se vou de shorts ou calça.
Eu não sei se sou carente ou desapegada.
Eu não sei nem minha cor preferida.

Mas eu não preciso saber.

Eu percebi que as únicas decisões que eu tomo são as que realmente importam.
Eu escolhi minha faculdade.
Eu escolhi me esforçar pra chegar em algum lugar.
Eu escolhi aceitar um emprego que tinha tudo pra me fazer surtar de ansiedade (e fez).
Eu escolhi o momento no qual eu ia desistir das coisas.
Eu escolhi falar uma das coisas mais difíceis de se falar pra alguém em estado terminal.
Eu escolhi até que ponto valia a pena insistir em algo.

E isso eu precisava fazer.

Todas as coisas importantes da minha vida eu quis decidir sozinha.
Eu quis decidir sozinha pra não poder culpar ninguém depois.
Pra acreditar que eu posso tomar decisões certas.
Pra acreditar que se elas forem erradas eu vou aprender e tirar algo bom disso.
Eu quis decidir sozinha pra confiar mais em mim.

E, caralho, eu tô me tornando uma pessoa que me deixa bem feliz.

21 de março de 2018

Desgraçada!

Se você é mulher cê já não é mais nada
além de puta, ingrata, desgraçada!
O seu lugar não é aqui
Cala a boca e começa a ouvir
exatas palavras que cê já gritou
Sua voz é tão baixa, ninguém quer saber
Me deixa explicar sobre você
e sobre coisas que nunca passei
Sobre como cê é frágil e necessita proteção
de coisas que o mundo preparou só pra mim
NÃO!
Não adianta dizer não!
Não me interessa.
Se apressa que eu tô logo atrás!
Não implora, eu não te escuto
Desse beco escuro cê não esquece mais

Se você é mulher cê já não é mais nada
Será que dá pra entender?
Você é burra ou o quê?
Olha pra mim, eu sou um santo
Abre a boca que eu te espanco
Tenta me acusar: cê leva na cara outra vez
Apanha uma, duas, três...
Até perder a sensatez
Vou te chamar de louca e todos vão ouvir
Sua voz vai ficar rouca de tanto implorar
E tudo o que cê vai escutar é que cê é mulher que gosta de apanhar
Mulher de malandro!
Por que não separa?
Mulher que se dá ao respeito é coisa rara!

Para! Cansei!
Você não pode me entregar
Chegou a hora de te largar num canto pra sangrar
Quem vai ligar? Em qual jornal que vai passar?
Não importa seu nome, sua história ou sua idade,
cê é só mais um cadáver da sociedade.
É só mais um corpo sem voz largado na calçada.

Talvez você mereça.
Infeliz! Mal amada!
Espero que você nunca se esqueça:
Se você é mulher cê já não é mais nada.

(Estela Seccatto)