21 de outubro de 2018

Ser ninguém

Às vezes eu me pego pensando no caminho mais fácil. Eu olho pra mim e não vejo nada. Eu não conquistei nada, eu não tenho nada, eu não sou nada. Tento não me comparar com as pessoas que me cercam e que já estão sendo alguém no mundo (ou que pelo menos sabem quem elas querem ser). Mas a verdade é que eu me comparo constantemente e não tem uma pessoa que eu olhe e que esteja igual a mim: sendo ninguém (jamais desejaria isso pra alguém). Eu tento me erguer, levantar a cabeça e acreditar que as coisas vão dar certo, mas minha mente fica me perguntando "por que você não acaba logo com isso?"
E eu não sei responder.

26 de agosto de 2018

Jangada

Atravessei o pântano
na jangada que você
me ensinou a construir

Desafiei o mundo
sem nunca deixar
a dor me consumir

O seu amor foi tanto
que por toda a vida
me ensinou como seguir
sem você

Ensinou que o pranto
e as despedidas
são essenciais pra se viver
Fortalecer

E hoje, quando eu canto
minhas feridas se curam
em cada canto do meu ser

Você deixou mais que memórias
Mais que histórias
Mais do que eu possa escrever

Você deixou seus sonhos
Suas verdades
Sua sede de viver e aprender

Você marcou minha alma
Carimbou e assinou
Me fez vencer, me fez assim

Você se deixou em mim


(Para minha tia Ligia)

14 de agosto de 2018

Se cala

Sobe
E de lá de cima vê
A vida
Que não mostra a TV
Sofrida
De quem só olha pro chão
Porque não aprendeu a se erguer
Que ninguém acreditou que ia vencer

Olha pro morro
Pro preto
Pro medo
Pro grito
Pro choro
E se cala

Olha o menino
Descalço
Com medo
Correndo
Fugindo
Da bala

Olha a menina
Sofrendo
Vendendo
Por troco
Seu corpo
E me fala

Olhando no meu olho, me fala
Me fala que não vê a senzala

Se faz de morto que não enxerga a morte
Cego por opção
Egoísta de berço, de passo fácil
De luta pequena, que não estende a mão

É direito seu calar essa boca
É mais do que dever se abster
Se tua pele não assina seu óbito no dia de nascer

Estela Seccatto
14 de agosto de 2018

20 de junho de 2018

Gole d'água

Respiração pesada, mal acordava
Faltava pouco pra se libertar
Questão de dias, uma semana, não mais
Eu te olhava admirada enquanto limpava seu rosto
Desgrudava sua pálpebra e cantava...
...porque cantar nunca é demais

Às vezes os olhos abriam e pareciam lua cheia
Brilho distante e fora do meu alcance
A voz tentava sair e quase sempre falhava
Mas eu podia ouvir um grito que não cessava

Sua boca estava seca como a terra nordestina no verão
Só não rachava porque eu não deixava e molhava com algodão
Um dia a voz saiu bem baixa e me implorou por um gole d'água
E eu, que prometi te cuidar, não dei
Não pude dar

Cuidar é ter força pra dizer 'não' sem fraquejar
E assistir calada a sede de uma boca prestes a rachar
É entender que você deve se doar,
se manter de pé, se entregar e aceitar
Daí aprender a ser grata por cada gole d'água que a vida te dá

(Estela Seccatto)

6 de junho de 2018

Vazio

Eu tenho um buraco que não é do lado esquerdo, é do lado de dentro do meu corpo inteiro. É tão grande esse buraco e eu nem sei como foi parar ali. Eu nem vi onde foi que começou e eu nem sei se já terminou de crescer... Se é que um dia cresceu. Às vezes começou assim mesmo: já grande. Porque às vezes ser grande é natural.

Às vezes eu é que sou pequena demais.
Tanto faz.

É tão grande esse buraco que ocupa todo meu espaço e é tão egoísta que não dá espaço pra mais nada entrar. É tão grande esse buraco que me preenche, os olhos têm preguiça até de piscar. O ar entra fraco com medo de incomodar o espaço que o buraco insiste em ocupar. Parece que o coração quer doer mas eu nem sinto ele bater.

Dá vontade de chorar.
Mas não sai lágrima pra chorar.
A mente enlouquece.

Mas não tem espaço pra loucura ficar de tão grande que é esse buraco.

Mal cabe eu dentro de mim.

5 de junho de 2018

Sem título

Sinto um vazio tão grande que olhei pra tela branca e pensei em deixar sem palavra alguma. Eu não sinto nada e isso é desesperador, parece que os dias estão passando e eu não estou vivendo. Isso é o máximo que eu consigo escrever.

16 de maio de 2018

03 noites

NOITE 01

- Tia Ligia, você fica muito tempo com a Bia?
- Ah, toda tarde e quando a Jô e o Rô não estão, né?
- Nossa, é dificil né, a gente se apega demais...
- Se apega mesmo, mas é gostoso.

Era dia das mães e você estava com sua neta (que não conheceu em vida).

Acordei feliz.

NOITE 02

- Estela, você não vai falar com sua tia?
- Às vezes é melhor manter as lembranças que já existem do que ficar criando novas lembranças e depois sentir a dor de se despedir de novo.

Não me segurei quando te vi sozinha. Corri e te abracei. Segurei no seu rosto, olhei nos seus olhos, eu tava desesperada:

- Eu te amo!

Comecei a sair com vontade de chorar.

- Só isso?
- Ah, então resolve uma conta pra mim!
- Haha, uma conta não, ne?!
- Eu tô com medo de esquecer sua voz.

Desabei.

Acordei chorando.

NOITE 03

- Ai, Estela, meu lado esquerdo nao tem mais nada. Agora do lado direito o tumor do pulmão cresceu e juntou com o tumor do fígado, tá bem grande. Eu acho que não vou fazer esse novo tratamento.
- Não faz. Essa nova quimioterapia é muito forte e vai te deixar muito mal. Você já passou por tanta coisa na vida... Precisa descansar.
- Mas será que não vão me achar covarde por nem tentar me tratar?
- Tia Ligia, você ficou 10 anos fazendo tratamento sem descanso nenhum. O médico já falou que essa quimioterapia não vai resolver seu problema, só vai te deixar mal.
- É, eu não vou fazer não.

Acordei entendendo.