22 de fevereiro de 2018

Quem eu sou

Eu sou a gota de álcool que fazia meu avô pegar a arma e ir atrás do meu pai no meio do mato. Sou todo medo que a lua observava lá do alto enquanto a noite se arrastava. Eu cresci com o pé no barro e no asfalto, a mão no guidão e a cabeça em um mundo que não é esse daqui. Eu fazia lição na cadeira do lado do fogão. A gente não tinha sala, não tinha sofá, tampouco escrivaninha pra estudar. E a gente nem queria ter, nem precisava ter. A gente agradecia ter o que botar no pé e o que comer. Agradecia ter o que sonhar. Nem computador, nem celular. Bastava um quintal e uma mente pra criar. Eu sou o banquinho que minha mãe subia quando criança pra alcançar a pia e lavar a louça. Eu sou a máquina de costura da minha avó. Eu sou a fralda de pano, a dor nas costas, a roupa batendo e o varal já cheio. Eu sou os tijolos colocados lado a lado pelas mãos cansadas do meu pai. Eu sou o cavalo velho do meu tio e o cheiro do café moendo. Eu sou o caminho pra sombra da mangueira, os coringas do baralho e a caixinha de dominó. Eu sou o nó da rede, eu sou a fome e eu sou a sede. Eu sou o trabalho que minha prima deu, sou o susto que minha mãe pariu, o diagnóstico que se ouviu e a dor que todo mundo sentiu. Eu sou os churrascos com música alta e o amor que nunca esteve em falta. Eu sou o câncer da minha tia, a quimioterapia e uma boa companhia. Eu sou toda a alegria e toda a agonia de toda minha família. Eu sou feita de mil histórias que vieram antes de mim e aprendi de mil formas a ser exatamente assim. E é por isso que eu sei que ninguém me conhece tão bem a ponto de me apontar o dedo e levantar a voz. É por isso que eu não abaixo minha cabeça pra quem não sabe a minha história, a história dos meus pais e a história dos meus avós. É por isso que sou feliz por ser quem eu sou, ter vivido o que vivi e ter nascido no berço em que nasci. Essa vitória ninguém tira de mim.

14 de janeiro de 2018

Tomei café gritando

Deitei a cabeça no travesseiro pra descansar a mente e consegui surpreendentemente dormir na primeira tentativa. Duas horas depois acordei. O coração acelerado, a mente gritando: como você ousa tentar me parar? Acendi a luz, esfreguei os olhos e puxei o ar. Nada familiar pra me acalmar. Dormi de novo com uma facilidade que não me pertence. Acordei de uma em uma hora: ela não parava de gritar.

Como você ousa tentar me parar?

COMO VOCÊ OUSA TENTAR ME PARAR?

Como
você
ousa
tentar
me
parar?

Deixei gritar. 

Tomei café gritando. Assisti o noticiário gritando. E gritando observei os pássaros. E gritando senti a garoa e o vento no meu rosto. Eu não parei um segundo de gritar um silêncio ensurdecedor. Quem passava por mim não ouvia nada, nem sequer meu respirar. Só ouviram o som dos pássaros, da chuva e do piano que não para de tocar.


12 de novembro de 2017

A marca que você deixou

Engraçado como sua falsa despedida passa em preto e branco na minha memória mas mesmo assim eu encontro vestígios da dor que ela me causou. Engraçado como eu não sinto nada por você mas lembro de todas as coisas ruins que você me fez sentir. Engraçado pensar que até 3 meses atrás eu nem sabia se você estava viva ou morta. Engraçado passar tanto tempo pensando que você poderia ter se matado e que eu poderia ter colaborado pra isso.
Na verdade, não é nada engraçado.
Mas talvez tenha sido pra você.
Hoje eu tento lidar com uns medos que você fez nascer em mim há 8 ou 9 anos atrás. Não que minha qualidade de vida tenha piorado ou que eu tenha me privado de algo por conta dessas cicatrizes, mas é uma luta interna constante e incessante que às vezes eu prefiro evitar. Mas a vida é assim mesmo e quem me conhece sabe que eu não me deixo fraquejar. 
Eu queria que você voltasse por 5 minutos e me explicasse o que aconteceu. Eu queria ouvir da tua boca que o erro foi seu e que você preferiu fugir à encarar. Mas isso não vai acontecer e é sabendo disso que eu aprendi a lidar. 

23 de outubro de 2017

Minha vida tá uma sopa

e ela tá fervendo, descendo goela abaixo.

Queria que a vida me rasgasse de dentro pra fora pra eu me reconstruir diferente da estupidez que sou. Queria poder gritar sem ninguém ouvir porque não me sinto merecedora dos ouvidos de ninguém. Sinto que qualquer som que eu produzo é apenas um ruído irritante após um grito incessante. Eu vivo me escondendo atrás de mil palavras que não querem dizer nada só pra não ter que dizer alguma coisa. Cada passo que eu dou parece me levar pro lugar errado, independente da direção. Eu não vejo mais pra onde ir e eu nem sei se quero ir. Eu me forço a rir pra me impedir de  quebrar e jorrar todo esse féu por cada canto que eu me escorar. É como se eu fosse fundação mal calculada prestes a rachar com o peso da carga que eu deveria suportar. 

Amanhã tá tudo bem, não precisa perguntar.
Hoje eu sinto minha mente dilacerar.

18 de outubro de 2017

Arrefecimento

substantivo masculino
  1. 1.
    perda de calor, queda de temperatura; esfriamento, resfriamento.
  2. 2.
    fig. perda do entusiasmo, do ânimo; indolência, apatia.

É o 2. Quem dera fosse o 1.

Algo dentro de mim tá pisoteando minha vontade de sair e respirar.
Eu tô virando parte do colchão.
Sei lá se é desânimo, cansaço, indiferença ou se é só o calor.
Ficar aqui me entristece e a ideia de sair daqui também.

Eu não consigo me olhar no espelho e gostar do que vejo.
Por conta disso eu não quero sair pra que as pessoas não me vejam.

Eu aprendi a gostar da minha companhia mas eu tô me afundando nela.
Como se tivesse surgindo uma pontinha de misantropia.
É mais cômodo ficar comigo, previsível que sou, do que sair sem direção e sem certeza de nada.

Mas isso é só um surto, como qualquer outro.
Logo volta o entusiasmo por coisas novas.
Até porque eu não quero perder tempo, já que vim parar aqui.

Hoje tanto faz.
Amanhã não sei.

13 de setembro de 2017

Sou coberta de pele


O problema é que eu odeio minha pele.

Hoje é um dia ruim, daqueles que nossa mente quer gritar mas a garganta tá cansada. Hoje o sol tava ardendo e o vento não me alcançou. Começou na madrugada toda essa coisa bagunçada dessa quarta-feira. Hoje eu acordei e me revirei tanto que a cama se cansou de mim. O celular não aguentava mais me dizer que ainda não estava na hora de levantar... mas os pensamentos me empurravam pro chão gritando que ali eu não ia mais deitar. Hoje a ansiedade me deu bom dia no café da manhã, eu fingi que não vi. Puxei o ar, soltei o freio de mão e fui.

Eu fui porque vida me ensinou a ir.

Eu voltei desse dia ruim, tirei o tênis e pensei "acabou". Pedi comida, comi e pensei: "acabou". Tirei a roupa, deitei no chão, me estiquei e pensei "acabou".

Mas não acabou.

Hoje o dia ruim continuou ruim e pela primeira vez em tanto tempo eu não soube deixar pra lá e sorrir. Eu me olhei nua no espelho pra tentar me encontrar e eu não gostei de nada do que vi.

Nenhum mísero milímetro.

Hoje eu me olhei no espelho e eu chorei. Entrei no banho e me esfreguei como se aquilo fosse arrancar todas as coisas que eu estou odiando em mim.

Tolice a minha, se fosse assim eu desaparecia.


3 de agosto de 2017

Um dia bem bom


Era meio difícil sair do quarto e andar no corredor. Você fazia aquela cara de emburrada toda vez que eu perguntava 'tia Ligia, vamos andar um pouco?' mas você levantava e ia. Você ia porque era necessário. Você ia porque você sempre fez de tudo pra se erguer e superar suas dores e essa doença. Você ia porque te falaram que você tinha no máximo 6 meses de vida e você bateu o pé no chão e viveu 10 anos. Dez fucking anos. Então você sentava, colocava o chinelo, ia até o banheiro e ajeitava o cabelo. Vamos? Vamos!

Em uma mão você segurava o suporte da medicação (não me deixava levar pra você). Na outra mão você segurava meu braço. Aí a gente ia andando bem devagarzinho naquele corredor comprido, parando pra dar oi pra todas as enfermeiras que cruzavam nosso caminho e pros outros pacientes que também andavam por ali.

Todos os dias, quando chegávamos na parte do corredor que tinha as janelas de vidros, você parava. Vamos parar um pouquinho? Vamos. Passávamos um tempo olhando lá pra fora e observando o movimento da rua. Você tentava adivinhar se tava frio ou calor e sempre dizia que queria ir logo pra casa. As vezes você aguentava ir até o fim do corredor e depois voltar pro quarto, as vezes você preferia voltar logo. Você sabia seu limite. 

Nesse dia da foto eu te convenci a ficar um pouco na sala de estar do nosso andar pra ver pessoas, assistir televisão, ficar fora do quarto. Durou algo em torno de 15 minutos e foram 15 minutos valiosos pra mim. Sentamos, conversamos, tomamos café e tiramos essa foto. Nossa que horrível, olha como eu to com cara de doente, não vai colocar no Face!

Acho que foi uma das últimas vezes que você conseguiu levantar da cama.

Todas as vezes que eu busco forças pra levantar eu lembro de você e vejo que eu tenho muito pra viver e muito pra sorrir. Você me ensinou cautelosamente a dar um passo de cada vez: sem pressa e sem olhar pra trás.

"A vida me ensinou que é tão simples ser feliz:
basta aceitar que ela é como é
e que as vezes batemos o nosso nariz"