19 de junho de 2017

Às vezes

Tenho um buraco no meu peito que às vezes se enche de cerveja.
Um copo na mesa, nenhum a mais.
Às vezes queria estar sentada ou dormindo no banco de trás.
Seria sinal de gente no banco da frente.
O som do violão não chega aqui nesse lugar,
nem o cheiro da comida quente pra me esquentar.
Tenho um buraco no meu peito que às vezes se enche de fumaça.
A mesma que se desfaz no ar da praça
e nas ruas e nas calçadas
e às vezes nem tem graça.
Às vezes essa mistura no meu peito pesa e vira sinusite
consequência de um buraco sem hora pra fechar.
Daí o peito pesa, a cabeça pesa, o olho pesa
e a gente nem reza porque nem sabe rezar.
Mais fácil deixar pra lá.
O travesseiro afunda, o coração inunda
mas não chega a afogar.
A vida me ensinou a nadar,
eu só não sei boiar.
E às vezes, bem às vezes, nas esquinas e nas mesas de alguns bares
essa gente desses lugares vêm me acompanhar.
E a conversa me preenche, as vezes enche,
chega até a transbordar.
Mais cerveja, mais gente na mesa e mais vontade de ficar.

Voltar pra casa não dá,
ela fica em outro lugar.


(Estela Seccatto)

14 de maio de 2017

Dia das mães

Aqui é o único lugar que posso escrever sem minha família ver.

Vó, já faz um tempo que eu deixei minha raiva de lado por tudo o que aconteceu, já faz um tempo que eu aceitei que a vida quis assim. Você me ensinou muito do que sou, você me pegou pela mão e me fez conhecer muito do mundo. O tempo passou e chegou a minha vez de te pegar pela mão. Eu fiz tudo o que pude, eu te dei banho, eu te ensinei a pegar no garfo de novo, eu virei noites acordada pra te cuidar. Hoje eu tento deixar alguns arrependimentos de lado, quando a gente é adolescente erramos muito e eu tive minhas grosserias, mas eu sei que tenho seu perdão e isso me conforta. Obrigada por me dar seu colo todas as vezes que eu chegava chorando. Obrigada por amaciar o cantinho mais gostoso do sofá. Obrigada por me acompanhar nos meus primeiros passos e nas minhas primeiras inseguranças. Obrigada por me ensinar sobre superação, você foi uma mulher incrível e minha admiração por você é eterna. Eu te amo, minha gordinha, sempre, sempre, sempre.

Tia, eu já consigo contar 80% da sua história sem chorar, isso é bom, é sinal de que eu to superando. É, eu sei que as vezes demoro um pouco e que você deve estar brava comigo por estar chorando agora, mas é que a saudade que eu tenho não cabe mais em mim e ela só aumenta. As coisas que você me ensinou eu vou levar pra sempre comigo: desde matemática até o perdão. O que eu sinto por você é o amor mais puro que eu poderia sentir. Eu ainda sinto sua mão quentinha segurando a minha na hora de dormir, ainda sinto a sua respiração ofegante quando tinha pesadelos e ainda sinto na ponta dos dedos a textura do seu cabelo quando eu te fazia cafuné enquanto você dormia. Eu queria acordar só mais um dia com o cheiro do café coando misturado com o cheiro do seu cigarro, te dar bom dia e te contar meus sonhos mais esquisitos. Queria fazer nosso pão na chapa, te servir o café e ficar do seu lado cobertinhas no sofá fofocando sobre qualquer coisa.. até você me pedir pra passar de alguma fase do Candy Crush. Eu queria ter você mais uma vez pra eu te contar sobre mim, sobre como eu cresci, sobre minha formatura e sobre o emprego que eu consegui. Tanto faz onde seria esse encontro, eu não me importaria de passar a vida inteira naquele quarto do hospital contrabandeando comidas gostosas e gordurosas pra você. Eu só queria mais um dia, uma hora ou até um mísero minuto pra eu te abraçar e te sentir de novo. 
Você é incrível, guerreira, meu exemplo de vida, minha eterna companheira. O meu amor por você não cabe em mim e é por isso que eu fico chorando por aí. Obrigada eternamente pela mãe que você foi pra mim e por ter feito minha vida mil vezes mais leve. Obrigada por todo o apoio que você sempre me deu e por todos os ensinamentos. Obrigada pelas madrugadas, pelo café, pelos conselhos e pelas conversas jogadas fora. Obrigada pelos seus sorrisos nos momentos mais difíceis.
Feliz dia das mães, onde quer que você esteja.
Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. 

15 de julho de 2015

Eu nunca mais consegui escrever e essa vai ser uma tentativa com grandes chances de ficar terrível. Eu nunca pensei que passaria por algo tão dolorido que não conseguiria nem escrever sobre. E depois de uma coisa tão dolorida, outra. E assim vai. Eu nunca quis gritar tanto como eu quis esse ano. Eu nunca quis fugir tanto. Se eu tivesse algum lugar pra onde fugir, eu fugiria? Será que eu correria pra longe e me esconderia de todo aquele silêncio esmagador? Que ano filho da puta, eu não me sentia assim, tão sozinha, desde 2007. Hoje eu tenho que dormir no meu quarto, eu não tenho mais opção.
Eu não sei como, mas deveria ser fácil perder as pessoas. Deveria ser tão fácil quanto é fácil para elas irem. Tem gente que quer ficar, mas não pode. Tem gente que simplesmente não quer. Tanto faz, as pessoas sempre vão. Com ou sem tchau elas vão embora e quem fica tem que aprender a lidar. Até onde a gente aguenta? Até onde nossa perna nos sustenta?
Meu quarto tá lotado de coisas e é um vazio enorme ficar dentro dele. As fotos já não me fazem bem. Que ano filho da puta! Sabe quando você segura o choro e a garganta dói de tanta vontade de chorar? Eu não consigo mais, não sai mais uma lágrima, meu olho tá seco, tá vazio. Mas a garganta dói, parece que vai sufocar. Se a noite o olho umedece o sufoco só aumenta, é desesperador. Aí eu mordo minha mão pra ver se uma dor engana a outra. É quando eu chego no meu limite e durmo por puro cansaço. 
Minha coluna dói de tanto ficar deitada mas eu vou levantar pra que? Se não tiver cerveja eu não tenho mais nada. E aí eu tomo cerveja, eu dou risada, me divirto, esqueço tudo e no outro dia eu vou levantar pra que? Se não tiver cerveja...
Que ciclo é esse? Que refúgio é esse que não dura a vida toda? Que ano filho da puta! Nada do que eu faço é volitivo. É tudo um jeito de contornar essas coisas que machucam. É gente mudando da água pro vinho, é gente que eu desconheço, é gente que eu não vou ver mais. É abraço que eu não vou ter. É a eterna rotina de abrir dez abas de filmes na internet e não assistir nenhum porque, em 5 minutos, a vontade se foi. É desligar a música 15 minutos depois de ligar. É querer silêncio pra ouvir minha mente e ver se ela se entende com ela mesma porque eu já cansei. E nem sei se quero entender.
Que ano filho da puta.

20 de agosto de 2013

E por que é que eu não te alcanço?

A cada dia que passa, menos eu te conheço. Cada pedido que eu faço, com o cílios no dedo, é sobre você. A lista das "coisas que eu quero hoje" só tinha seu nome. Todos os dias eu sou obrigada a te ver. A vida inteira eu sonhei, pergunte à quem quiser, em ter alguém por perto. Alguém que eu realmente me sentisse em casa. Mas sempre foi difícil. Nunca tive alguém tão presente, sempre tive distância, sempre me entreguei demais, sempre errei, sempre erraram. Quando eu te vi sorrir eu me vi sorrindo, eu quis acertar. Eu tentei ir com calma, eu tentei não assustar, eu te ouvi falar por dias dos seus amores e eu fiquei lá. Eu quis me afastar, mas você é tão mistério que me deu sede de te desvendar. E me deu desespero quando você quis se esquivar. Eu me intrometi no seu caminho esperando que uma hora eu fosse cansar, mas eu não cansei. Eu não me canso de você. Eu sabia que, de algum jeito, eu havia crescido um pouco dentro de você. Parece coisa de filme, mas algo sempre me diz que vale a pena. Vale a pena quando eu ouço sua risada, vale a pena quando você não para de falar, vale a pena quando você me abraça. Vale a pena quando dá saudade antes mesmo da gente se soltar. Estou com raiva. Eu só quero saber se te empurro pra longe e ou se te grudo em mim. Mas você não fica longe e também não se aproxima. Você só fica aí: me assistindo enlouquecer. Isso tudo é seu Djavan embaralhado. Eu deságuo em você, mas você não oceano. Você sertão. É tudo tão seco que não mata minha sede. E eu preciso de um copo cheio de você.

4 de julho de 2013

Outra vez.

Outra vez estou sentindo e outra vez sinto sozinha. Como se meu cérebro adorasse procurar quem eu não vou poder ter. Como um radar de incompatibilidade que insiste em acertar. Sempre acertando no mesmo erro. Sempre. Chega até ser engraçado como pessoas tão erradas me encantam. Talvez nem seja tão engraçado assim. Na verdade, não é nada engraçado. Eu fico aqui e ela ali. Sabe desenho animado, quando tá apaixonado, que é uma explosão de corações em volta da cabeça? Estou assim, mas minha cabeça está explodindo junto. Não me serve de nada ficar assim, apaixonada. Não me faz bem, só me faz querer cada vez mais quem eu não vou ter. O bom é que sempre acredito que é paixão besta e que logo passa, assim diminui a certeza de que vai continuar incomodando..

30 de junho de 2013

Cansaço.

Vontade de explodir. Parece que tem um monstro dentro de mim preparado pra sair. Minha garganta está com sede do grito. Meu olhos se cansaram de piscar e de perder o momento em que eu errei. Vontade de jogar contra a parede todos os que me apontam o dedo. Pois apontar o dedo é fácil, mas ninguém nos cospe na cara os motivos pelos quais os dedos estão apontando. Ninguém tem peito pra se explicar. Eu cansei. Cansei de aguentar drama por coisa pouca, cansei de gente me julgando, cansei de pais me rejeitando, cansei de lugares com gente que nem se importam. Cansei de querer gritar e me calar. Cansei de ser eu. Quero, pela primeira vez, ser o monstro que todos insistem em dizer que sou.

29 de junho de 2013

Só hoje.

Há meses atrás me disseram que eu estava sempre lá pra você e, por esse motivo, você se acostumou de um jeito ruim. Quando você queria ficar longe, você ficava. Quando você me queria por perto, você me chamava. Eu sempre ia até você. Mas ah, você começou a vir até mim também. Você começou a sorrir mais, a abraçar mais, a se importar mais. Você começou a se aproximar. Mas eu não sei o que te dá, as vezes, que te faz achar que é terrível essa proximidade. Você se afasta, mas você volta. Você volta e me bagunça. E sabe por que você faz isso? Porque eu sempre estou lá pra você. Seja pra te dar um conselho ou uma barrinha de chocolate. Caralho, eu gosto de estar lá pra você. Você marca as 14h15 e eu chego as 13h30. Você diz que quer espaço e eu te dou o mundo inteiro. Você quer um beijo e eu me dou inteira. Mas se sou eu que quero, você acha graça. E, como todo mundo, você apontou o dedo na minha cara. Você me fez culpada de algo que eu nem sei ao certo o que é. Quando a gente vai muito atrás os pés cansam. Mais uma vez você conseguiu o que queria: o que eu mais quero hoje é não estar lá pra você. Só hoje.